20.11.08

Ali

imagem: google
Sou Ribatejana. Quem já falou comigo, reconhece-o de imediato. Seja pelo sotaque, seja pela forma de estar, é nítido que quando estou fora do Ribatejo dizer “Eu não sou de cá” é a mais pura das verdades. Ribatejo. Terra do touro e do campino. Terra das festas bravas. Terra de uma das mais fortes tradições portuguesas. Terra dos forcados. Forcados. Enfrentam os touros, armados apenas com braços e pernas. Agarram-se àquele bicho com unhas e dentes. Sabem que a única forma de chegar ao fim é fazendo a viagem agarrados à cara do touro. Há, assim sendo, o Forcado da Cara, os Ajudas (primeiro, segundo… etc) e o Rabejador. Uma equipa que, junta, vence o medo pela união e o touro pelo peso bruto de todos aqueles corpos. Cansam-no. Cegam-no. Vencem-no. Há uns tempos atrás, estive a falar com uma amiga minha que se dizia farta de ser o Forcado da Cara. Que lhe faltava o resto do Grupo. Onde estavam os Ajudas? E o Rabejador para melhor colocar o bicho? Dizia que estava farta de ser o Forcado da Cara, o que leva com o impacto brutal de uma locomotiva versão quatro patas e que depois, sozinha, tem de amansar a fera o suficiente para se poder libertar em segurança. Disse-me, contou-me, confidenciou-me que lhe doíam cada vez mais os embates. Que já não aguentava as voltas à praça, as pancadas contra as barreiras. Que de cada vez que ajustava o barrete, preparando-se para mais uma saga, sentia-se cansada e sem forças. Isto de viver no Ribatejo permite certas analogias que, se não as percebermos e sentirmos mesmo bem, não fazem sentido. Sou Ribatejana. Tenho um orgulho muito grande de viver nesta zona de Portugal. É algo que não troco por nada. As pessoas. As gentes. O ambiente. É o sentimento “Home” que me bate em cheio de cada vez que penso na hipótese de sair daqui. No Domingo, fui fazer uma visita ao meu Avó. Ele vive numa pequena terriola a aí uns 25 kms de Samora, para os lados de Coruche. É essa a terra que me pertence de origem. É daquela terra que eu sou. Pequena e esquecida, mas forte no peito de quem a ela pertence.
Quando lá fui, estive com umas pessoas que já não via há muito tempo. Conhecem-me desde bebé. Têm um filho, 24 anos, que também estudou fora e que também trabalha fora. Conversa puxa conversa, histórias puxam histórias, novidades puxam novidades. Adorei estar com eles. Tratam-me pelo diminutivo do meu nome (poucos, muito poucos o fazem), tal como os meus avós. O filhote deles, às tantas, virou-se para mim e disse-me que tinha tido um momento na infância que o tinha marcado muito e que era comigo. Riu-se e explicou-me que foi quando um dia apareci com um boião de gel e lhe espetei o cabelo todo (tal como hoje em dia se usa…). Disse-me que ficou tão contente que sempre que se lembrava de ser pequeno, se lembrava do deslumbramento do gel, do cabelo espetado e de mim a dizer-lhe que assim é que ele ficava mesmo bem, que um dia ia ser normal andar com o cabelo assim. Fiquei tão sensibilizada por ele me ter dito aquilo, por ter percebido que aquele rapaz que não me é nada, tem lembranças que lhe são queridas e que fui eu que as criei para ele, que me vieram lágrimas aos olhos enquanto ríamos e passávamos de história em história. Às tantas, após sumário histórico dos últimos anos em que não nos vimos, disse-me que achava que isto de sermos Ribatejanos nos preparava de uma forma diferente para a vida. Que ficávamos mais preparados por comparação a quem não tem à mão as experiências que tivemos e temos. Concordei. Aconcheguei-me no braço do sofá, olhei aquelas três pessoas e senti tantas saudades daquele clima, daquele ambiente, daquele carinho, daquela vida que até sorri. Saudades boas. Das que enternecem. Home, pensei. É esta a minha gente. Eles conhecem-me. Sabem quem eu sou. Não quem eu me tornei. É aqui que me sinto em casa. Home. Por momentos, senti que tinha os primeiros e segundos ajudas atrás de mim, a segurarem-me no ar, a não permitirem que caísse, que não me perdesse da cara do touro. Por momentos, senti-me ali. Mesmo ali. Presente a cem por cento. Existi apenas eu. Apenas eu sob a forma de diminutivo. Apenas eu, sem o resto que vem atrás de mim ou à minha frente. Só eu. Não uma amostra de mim, mas sim Eu. Adorei.

14 comentários:

v. disse...

Acho engraçado que no mesmo texto em que fales de toiros, incluas um amigo de infância que tem de ti as melhores recordações... acho que sim!

Me disse...

Pois... não tem nada a ver, não é? Foi para contextualizar. Foi para "explicar" melhor o momento.
Tu percebeste. Eu sei que sim.
(e o texto não era sobre touros... o que também percebeste, mas enfim...)

Anónimo disse...

As nossas cores primárias são tão bonitas. Pena que pela vida fora as tenhamos de misturar... E obrigada... Viajei no tempo, voltei a uma aldeia beirã e lembrei de momentos tão puros e bonitos... emocionei-me!

Beijinhos

Flower

Me disse...

Olá Flower,
Ohhh... nada a agradecer. Saudades das boas, né?
Fico contente :)

Beijos para ti

v. disse...

Que emocionante que isto está!

Ora deixa cá puxar de uma cadeira e das agulhas do tricot, que eu não resisto a uma coisa emocionante!

Me disse...

Eu sei o que te faria com uma cadeira e umas agulhas de tricot para tornar isto mais emocionante...

Anónimo disse...

Mesmo sem Ajudas, a adrenalina existe:

http://www.youtube.com/watch?v=bJRIG8X-uiI

Zé Ramalho

Me disse...

A minha Samora! E sim, a emoção existe. É preciso estar lá para sentir, mas são momentos muito bons.
Devo confessar que na maior parte das vezes o pessoal vai às largadas para o "conbíbio", sendo que só de vez em quando se procura saber do touro... Depende dos touros e depende do "conbíbio". Pessoalmente, adoro "ir ao touro", como se diz lá em Samora.
Para o ano há mais.
Obrigada, Zé Ramalho.
:)

Ana disse...

Eu sou algarvia por usucapião... já cá estou há mais de 20 anos e a minha família tem cá raízes. De qualquer modo a minha cidade é e sempre será Lisboa. Com tudo de bom e de mau que tem. Mas é no Algarve que moro e trabalho.

De touros, não gosto muito a não ser quando estão livremente a pastar nas lezírias. Touradas e afins... completamente contra!

Beijocas!

(já sei que ofendi a identidade ribatejana... peço imensa desculpa)

Me disse...

Ana,
Claro que não ofendes nada nem ninguem... As touradas e derivados são para quem gosta, claro (como tudo na vida, aliás).
Ai o Algarve... Portimão é a minha cidade Algarvia de eleição. Também gosto. Principalmente porque quando vou, quer dizer que estou de férias ou algo parecido.

Já agora... o post não era bem sobre touradas... mas pronto. As analogias têm destas coisas...

Espero que o Algarve esteja bem. As Lezírias e respectivos habitantes estão mais que bem :)

Ana disse...

Por acaso trabalho em Portimão =)) E até é uma cidade de que gosto. A vida tem cá destas coisas... =)

Sim, as analogias são uma chatice, mas são muito úteis. Por vezes levamos umas cornadas da vida que parece mesmo que algum touro nos perfurou a lombeira... mas no caso da vida, as cornadas por vezes são na alma, o que me faz pensar que se calhar a cornadita do touro dói um pouquito menos (mas só um POUQUITO...)

Beijinho!

Me disse...

Ana,
Pois... Podes crer.
As dos touros saram-se... fica-se com uma cicatriz e uma história para contar aos netos.
As da alma... Essas são diferentes. Muito diferentes mesmo. Não deixam cicatriz. Ferda mesmo.
Mas pronto. Por enquanto ainda não levei nenhuma cornada de um touro... E não planeio levar! Bolas!

O mundo é pequeno e o algarve então... mais pequeno ainda. Portimão é uma espécie de zona vale-tudo para mim. Sempre foi. Gosto mesmo, mesmo, mesmo.
Beijos para ti e bom trabalho em Portimão (quem me dera poder trabalhar em Portimão... quem me dera!!)

Lizard King disse...

Estranho, curioso ou equitativo???
Revejo-me nesse grande Ribatejo em que EU sou o Forcado da Cara e "os" ajudas não abundam...mas questiono será que um forcado da Cara sabe viver sem a adrenalina do comando??? Pegar o Touro e saber que se vence...há sempre duas hipoteses: pega-lo fingir desmaio e fuga rápida para a enfermaria...ou pegá-lo, voltar a pegá-lo..e se não der de caras vamos até à cernelha...hilariante se não fosse triste...alguém me sabe explicar o porquê de MULHERES bonitas, resolvidas e decididas terem sempre esta m* deste calcanhar de Aquiles que as deixa vulneravéis e assim para o parvo???`
Isto do Calice e da Espada dá que pensar...

Me disse...

Lizard King,
Já o disse antes: adoro comentários que fazem as perguntas e dão as respostas... Poupam-me um trabalhão.
Se assim não fossemos, como descreveste, então pequenos momentos como o que descrevi nunca seriam tão belos...
Talvez sermos resolvidas nos permita ver melhor o que realmente queremos? (mesmo que não sejamos capazes de tomar a decisão final...ou assumi-la... verbalizá-la). Talvez sermos resolvidas seja o que nos faz ver a tal enfermaria como um "easy way out"... Talvez as cernelhas sejam o que nos fazem ser resolvidas (é preciso muita cabeçada e muita teimosia para chegar à cernelha... é mesmo preciso termos a certeza absoluta de que é aquilo que queremos fazer, que é aquilo que precisa ser feito…). Talvez só chegamos a ser resolvidas quando existe esse gostinho especial pela tal adrenalina do “comando”… Seja esse comando nosso, ou de outra pessoa. Força, Lizard King, e como de certo sabes, está em sabermos que mesmo “entregando o poder”, continuamos poderosas… É esse o tendão de todos – homens e mulheres. O tal poder só pode estar ou num lado; ou no outro. Quem não o tem sente-se fraco e luta para o ter. Quem sente que o tem sente-se forte e luta para não o perder. Não há conforto na partilha igualitária. Não há segurança nisso. Às vezes, as resolvidas, as que se sentem com força (o que é diferente de poder…), as que sabem que têm o tendão e que o mostram sem pudor, as que sabem qual o caminho que querem e que não têm medo de o dizer, são as que mais sofrem porque essa força é vista como fraqueza, como espaço para “abuso”, como poder a ser capturado e violado. Mas, como acima de tudo, somos Mulheres, e sentimos tudo com cada centímetro da nossa pele, do nosso corpo, sofremos. Olhamos para nós, erguemos barreiras e pensamos que para a próxima… Para a próxima. Pois. Será igual. As resolvidas são incapazes de não ir à Cernelha. São incapazes de não pegar o touro, seja de que forma for, para poderem, pelo menos… no mínimo, dizer: Sobrevivi. Não ganhei ou perdi (nunca é uma questão de ganhar ou perder para as resolvidas), mas sim, Sobrevivi. Aprendi. Voltarei.
Lizard King, nós, as Mulheres resolvidas, cheias de tudo para dar, nunca damos a nós próprias. É sempre o touro que acaba por sentir a nossa força… E quem nos pega a nós? Quem nos faz sentir a tal força? Quem?