6.9.14

Qual a sensação de estarmos errados?


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Na altura, no momento, a avalanche de tudo que fizeste de errado, tudo quanto conseguiste engatar, tudo quanto pura e simplesmente fodeste, recai sobre ti com uma força tal que até te encolhes. Dobras-te sobre ti mesmo, fechas e cerras os olhos, os dentes, as mãos. Os erros levantam a cabeça e tu baixas a tua, sentido o peso da culpa, da vergonha, do puro mal-estar por a lista aparecer e continuar a crescer e parecer nunca mais acabar e ficar cada vez mais pesada e cheia e a dor, a dor, a culpa, e a puta da lista continua a rodopiar, quase como se estivesse a gozar por saber que, agora, com a tua ajuda, só poderá crescer ainda mais.  
Aos poucos, libertas as mãos, os olhos, o estômago. Aos poucos, voltas à tua forma normal, mesmo que ainda um pouco curva, corcunda, até. Olhas para a tal lista, a avalanche, e vês que há lá mais informação. Nenhum “mas” digno de contrariar ou argumentar um qualquer erro, não, mas informações adicionais, soltas, tipo “fun facts” que contextualizam e colocam um foco diferente no alvo de toda a culpa e vergonha.
E aí, quando os olhos deixam de estar semi-cerrados e consegues deixar entrar um pouco mais de luz, vês, percebes, entendes que os erros só são erros após o facto. Qual a sensação de estarmos errados? Igual à de estarmos certos. Só nos sabemos errados depois, depois de acontecer algo ou surgir aquele pedacinho de informação que altera tudo, incluindo o certo para o errado. Ou o errado para o certo.
Mas, não questionamos.  Sentimos a culpa, o lamento e não nos lembramos que, na altura, pensávamos que estávamos a fazer bem. Parece que é desculpa de mau pagador. Parece que é algo que alguém que se está a tentar livrar das suas responsabilidades diria. Parece algo de alguém que se acha sempre cheio de razão. Parece algo que alguém extremamente frio diria.
Na verdade, é a única forma de nos perdoarmos pelos erros que efectivamente cometemos. De perdoar os outros.
Todos estamos certos até haver prova em contrário. Na nossa cabeça, para nós, é assim.
Ou aprendemos com o que errámos ou, então, não, perpetuando os mesmos erros até se tornarem hábitos, parte de nós.
Qual a sensação de estarmos errados? Igual à de estarmos certos.

E isso é que fode tudo. 

3.8.14

Is there anybody out there?


imagem: google

Não é um mega-regresso. Para isso, tinha que ter ido a algum lado. Não fui.
A conversa foi como que interrompida. Pelo menos é assim que gosto de ver a coisa.

Um ano e meio sem aqui vir. Um ano e meio sem Me.
Não vou mentir e dizer que não me fez falta. Fez. Não vou mentir e dizer que escrever aqui não é uma espécie de escape – para o bem e para o mal. É.
Também não vou mentir e dizer que está tudo bem, que não podia estar melhor, que são tudo maravilhas. Não está, podia e não são.
Directamente da Fase Bacalhau que é a minha vida neste momento (nem peixe, nem carne), o mundo não parece um sítio muito bonito.
Mas até começaste a trabalhar depois de 4 anos sem emprego!, ouço reclamarem.
Sim, comecei. Tive muitos projectos pelo meio mas nada que me sustentasse (por muito gozo que me dessem). Quando menos esperava, literalmente de um dia para o outro, veio o tão almejado emprego. Juro-vos, por tudo quanto me é mais sagrado, pudesse, e despedia-me. Não pela parte do trabalho (isso nunca deixei de fazer, mesmo desempregada e sem ganhar um tostão), mas pela parte de não mais me rever (ou estar a custar a ajustar) no “cornos para baixo, boca fechada” em que se transformou o mundo do trabalho. Algo mudou. E não foi para melhor. Desconfio que tenha ido parar ao sítio errado. Desconfio que também tenha mudado mais do que alguma vez esperava conseguir perceber.
E mudei. Muito. Acho. Sinto? Algo assim.
Na verdade, nunca me senti tão perdida, seja a que nível for. Tudo me é estranho, tudo me põe a pensar mais do que o necessário, mais do que devia. Tudo me faz duvidar do que antes tinha por certeza.
E é este o novo ponto de partida – todo um novo mundo estranho que tenho pela frente, com o qual não sei muito bem o que fazer a não ser escolher bem as perguntas que faço. Sim, porque a coisa de ‘perguntar não ofende’ também, entretanto, deixou de ser verdade. E eu tenho tantas perguntas para fazer...

Espero que estejam bem, que fiquem mais um pouco aqui pelo Tasco. Sem vós, não tem nem metade da piada.


Continuemos. 

9.1.13

De início, temos o princípio.

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2013 já cá canta. Fantástico.
“Como está a correr o teu ano, Me?”, já me perguntaram.
“Normal… vamos no 9º dia, continua a fazer frio. Tudo dentro do expectável”, respondo para não fazer muito alarido e destruir a fé alheia.
Sendo verdade que o ano correrá com base nos indícios (ou no que acontece) dos primeiros dias do mesmo, devo admitir que o meu parece não ir correr muito mal. Porquê? Por isto.
Ao terceiro dia de Janeiro, fui ter com amiga que iria nesse mesmo dia, voltar para país onde se encontra emigrada desde meados do ano passado. Fui para me despedir dela mas, devido ao atraso em fazer as malas, acabei por ser útil de outras formas.
O país para o qual foi não é, digamos, dos mais desenvolvidos. Entre um dos factores de necessidade de desenvolvimento, encontra-se a indústria dos apetrechos e geringonças de animação sexual (isto só para vos contextualizar).
Cheguei a casa dela faltava cerca de uma hora para se meter a caminho do aeroporto. Virou-se para mim, com ar incrédulo, e exclamou: Esqueci-me daquilo! Esqueci-me! Importas-te de ir comprar num instante?!, enquanto me atirava com notas para as mãos.
Confusa, perguntei qual seria alvo de tamanho esquecimento. Creme para massagens eróticas, anéis penianos com massajador de clitóris e pensos higiénicos respondeu-me.
Só tive tempo de perguntar “Com aroma ou sabor a quê?!” enquanto voava porta fora para ir até ao supermercado mais próximo tratar de encomenda tão peculiar. Tinha 10 minutos para concretizar a tarefa.
Entrei no Continente aqui da terrinha a correr e em passo muito apressado me dirigi até à secção de tais entretenimentos. Duas senhoras, sossegadamente a escolher pacotes de lenços de papel, sorriram quando me viram a olhar para prateleiras com ansiedade, pegando nesta e naquela caixa, neste e naquele tubo de creme, escolhendo entre aparelhos a pilhas ou baterias (impressionante a escolha disponível no Continente…). Peguei no arsenal e, em passo ainda mais acelerado, fui para a caixa. Estavam todas mais que cheias e, enquanto tentava esconder o que iria comprar nos braços (eu sou de cá, porra) lá escolhi a que me parecia menos cheia.
Tinha funcionário masculino a atender. Pensei: que se lixe. Ao menos assim dou uma ajudinha ao sexo feminino quanto à aceitabilidade deste tipo de produto (e dou-lhe razões para ter mais uma história para contar).
Chegada a minha vez, coloquei os produtos (uma caixa de pensos higiénicos, dois anéis penianos e um tubo de óleo com aroma a chocolate) em cima do tapete e agarrei logo num saco para ir pondo as compras. O tempo que o representante da espécie masculina demorou a encontrar a merda dos códigos de barra pareceu-me um horror. Aquilo é que foi virar e revirar as embalagens todas. Olhei para o ecrã onde se vêem as compras descriminadas e não me contive. Comecei-me a rir. Rapazinho sorriu ligeiramente. Pensei que podia alegar que era tudo para uma amiga minha que estava emigrada e precisava disto mas não o fiz. Quem iria acreditar?
Ainda a rir-me, paguei e agradeci. Peguei no saco e corri dali para fora.
Ainda hoje consigo ouvir os pensamentos das pessoas que estavam na fila daquela caixa (para não falar dos de quem me atendeu): Vai cá com uma pressa! Assim é que é! E até leva pensos e tudo! Aquilo é que vai ser!
Conclusão: não sei bem qual será a parte desta história que melhor poderá fornecer dados quanto a como correrá 2013; se a risota incontrolável, se a correria desenfreada, se o impulsionar da vida sexual de terceiros, mas algo há-de surgir.
Vamos ver.
Bom ano para todos.