7.10.08

A Lingerie Azul

imagem: google (istockphoto)
Era uma vez uma Patareca que queria, mas que queria mesmo, sentir o aconchego de uma lingerie azul. A Patareca não sabia bem porquê, mas achava que o azul ia ficar bem com o seu tom de pele… O vizinho de baixo (ou o Porco, como ela gostava de o tratar) dizia que não se importava, desde que a tal lingerie não viesse em forma de fio dental… obstruía-lhe a visão dizia ele. Ela bem tentava avisar a Dona (ou Gaja como ela a tratava). De cada vez que iam a uma loja, ela fazia os possíveis e impossíveis para tentar fazer com que a Gaja sentisse a necessidade de lingerie azul. Ele era comichões, ele era suspiros, ele era tremeliques… mas nada. Nada feito. Dado a Gaja não ter Gajo (ou Intrusor, como a Patareca gostava de os chamar), menos hipótese havia ainda de a lingerie azul algum dia fazer parte do seu mundo. Era frustrante. Estava farta das cuecas cor de pele, franzidas e mal confeccionadas que lhe arrebanhavam os sedosos cabelos. Estava farta das tangas de elastano que deixavam marcas que a Gaja depois coçava, coçava, coçava. Estava farta. O tempo foi passando e a Patareca perdeu fé. Perdeu esperança. Até mesmo o Porco andava meio esquisito. Dizia que não gostava de a ver assim, tão triste e desolada. - Porque não pedes à Gaja para irem à depilação?, perguntava ele. Ficas sempre mais bem disposta depois de um corte… - Ehhh… respondia ela. A Gaja anda feita parva. Esqueceu-se de mim. Faz de conta que não existo. Não consigo fazer nada. Eu bem envio sinais! Mas parece que há ali qualquer coisa ao pé do umbigo… não lhe chegam aos ouvidos. Será que ela ainda não percebeu que não se deve esquecer de mim??? Quero uma lingerie azul, porra!!! Quero sentir o cetim em mim! Quero sentir a leveza e o toque de algo de qualidade não feita na China! Sinto-me doente. Não quero mais algodão!!! Não quero!!! - Pois, retorquia o Porco. Por mim, tanto me faz a cor… ou o tecido. Por acaso até que nem me importava de uma sessão lá na Maria Angelina… mal te consigo ver, ‘miga! O tempo foi passando e a Patareca e o Porco perderam toda a esperança. Calaram-se. Hibernaram. Um belo dia, foram abruptamente acordados do seu sono por uma espátula com cera quente. - ARGHGARAGHGAR!!!!, gritou a Patareca. Mas o que é isto???? - Cala-te, oh parva, disse o Porco. Não vês que estamos na Maria Angelina? Vá, aguenta-te que eu estou a fazer um esforço enorme para fazer o mesmo! Dasse!! A Patareca, que não via a luz do dia há tanto tempo, ganhou nova esperança. Quando lhe arrancaram o cuecão de cima, respirou fundo. Livre! Estou livre!!, pensou ela. Aguçou os ouvidos. Queria ouvir tudo. - Oh, Maria Angelina… conheci um Gajo porreiro. Vamos ao cinema hoje. Ele é um querido! A Patareca, depois de ouvir estas palavras, ficou desolada. - Ora, porra. Já viste isto, Porco? Ela não veio cá por nós! Ela veio cá porque vai para o cinema! É sempre a mesma coisa! Não entendo porque é que de cada vez que vai cinema tem de vir à Maria Angelina! Ela tem algum acordo, é? Dá bilhetes? Não entendo. - Quero lá saber, respondeu o Porco. Talvez seja um filme com robots assassinos e fantasmas gulosos que conduzem carros desportivos enquanto tentam salvar o mundo de uma explosão nuclear que acabará com toda a humanidade! Ou uma comédia! Daquelas bem parvas! Vou-me cagar a rir! - Não voltes a fazer isso, meu estúpido. Sabes o que aconteceu daquela vez que fomos ver o Scary Movie! Que vergonha. Sabes quanto tempo demorou para tirar o cheiro da minha franja??? Nunca mais! Lá se despediram da Maria Angelina. Foram para casa. A Gaja, nervosa, ainda acertou a franja à Patareca. Depois, foi até à cómoda e escolheu uma lingerie preta, com rendinhas e laçarotes. - Oh, pelo amor da Santa Pachorra! Outra vez esta? E uma azul, não??? ‘Tás a ouvir, Gaja? AZUL!! Não consigo ver nada com esta cena em cima! Quero a cor do céu em mim! Quero uma cueca azul!!! Foram. A Patareca triste e desolada, o Porco a contar os trocos para as pipocas. Entraram num carro desconhecido. Os bancos eram desconfortáveis. A Patareca remexia-se. Não gostava nada daquele banco. Ainda por cima, a Gaja tinha vestido uma saia. Os collants apertavam-lhe as bochechas. De vez em quando, levava com uma lufada de frio por causa do ar condicionado… tinha frio. - Já viste isto, Porco? Como se não bastasse não ver nada, ainda parece que fomos metidos num frigorífico! - Não tenho frio nenhum, respondeu. ‘Tou bem. Quero pipocas!!! - És mesmo parvo. Quando chegaram ao cinema, encontraram os lugares e sentaram-se. A Patareca, desolada lá se ajeitou e pediu aos céus que a Gaja não cruzasse as pernas. Cega e com frio, era só o que lhe faltava ficar sem ar e não conseguir respirar. Bem dito bem certo. Ficou com calor. O Porco lá se ia queixando que tinham ido ver mais um filmzeco história sem jeito. Nem uma pipoca comeu. Foram. De volta ao carro, a Patareca lá acalmou. Decidiu dormir até chegar a casa. De repente, acordou. Não estava na casa dela. Estava noutro sítio qualquer. Já não sentia a opressão dos collants. Estranhou. Sentia que alguém lhe afagava os sedosos cabelos. Estranhou ainda mais. - Psssst! Oh, Porco! O que é que se está a passar?, perguntou ela. - Não reparaste? O Gajo deve ter comprado um bilhete especial lá no cinema… - Oh, valha-me caredo. Adormeci, pá! Ai!! Mas o quê é isto!?!?!, gritou ela. - Tem lá calma contigo… não te lembras? A partir de agora, nada posso fazer… ‘tás sozinha, ‘miga! Até logo!!, despediu-se ele. Virou-se para o lado e adormeceu. Preferia não assistir a certas coisas. Gostava de dar privacidade à colega. A Patareca, agora a respirar muito melhor, tentou fazer sentido daquilo. - Oh tu aí! Intrusor!!! Olá! Sou a Patareca!! ‘Tás aí, meu?, perguntou. - Ahhh… olá. Como estás? Tudo bem por aí? O meu nome é Dom Geraldo… pelo menos é o que o Gajo me chama… - Dom? Hmmm… isso ainda se está para ver se tens ou não, respondeu ela meio maliciosa. Estava a começar a lembrar-se de como aquilo funcionava. Tinha de se fazer de bonita e simpática. Depois, quando estivesse farta, mandava-o à fava enquanto a Gaja a voltava a vestir. - Bem, pelo menos no nome tenho Dom! É um prazer conhecer-te., respondeu ele. - Isso também ainda se está para ver, brincou ela. De repente, a Patareca, devido a um bom ângulo de luz do candeeiro do tecto, vislumbrou a fatiota do Dom Geraldo. Boxer azul!!! Boxer Azul!!! Que lindo! Ai! Mas que classe! Mas que fashion! Estava muito contente. - Oh, Geraldinho… ‘tás todo giro… onde compraste a fatiota?, perguntou ela. - Se queres que te diga, não sei. O gajo aparece-me com estas coisas. Eu não vou às compras com ele… Fico em casa. - Pois. Entendo. Mas olha que isso fica-te mesmo bem… Chega lá aqui mais perto para ver melhor. Estas cuecas prestas não me deixam ver grande coisa… Ele chegou-se. Ela olhou. Ele sorriu. Ela sentiu o azul nela. Sentiu-se aconchegada naquele mar de tecido azul. Encostou a cara. Sentiu a suavidade do azul. Olhou melhor. Throttleman. O Gajo tinha bom gostou. Olhou melhor ainda e viu que no meio do azul havia uns corações rosa. - Mas que bonito! ‘Tás mesmo giro!, disse-lhe a Patareca por entre suspiros. - Muito obrigado! Sabes, também consigo brilhar no escuro! - Não me digas!!!, exclamou a Patareca. - Digo, digo! Espera que vou apagar as luzes para veres! Foi. E ela viu os corações a brilhar no escuro. Lindos e redondos. Fantástico!, pensou ela. Isto é melhor do que ir ver fogo-de-artifício! Depois viu os corações a voarem… voarem… voarem. Ficou triste. De repente, começou a sentir-se leve. Tão leve! Já via tudo às claras! Já não havia cueca preta! Gritou de felicidade! - Oh, Dom Geraldo! Agora sim, vejo-te! És tão bonito! - Também eu a ti. Assim é muito melhor. ‘Tás boa? - Sabes que sim, seu maroto! Anda cá para eu te contar um segredo… anda cá. Ele foi. Depois foi. Depois veio novamente. Depois foi. Veio. Foi. Veio. Foi. E ela, não aguentando mais, segurou-o bem e chegaram os dois. - Oh, meu Domzinho. Gostei muito deste bocadinho. - Também eu, minha querida. Tens cá um gostinho… Heheheh!! Era para rimar… - És um poeta. Um lírico! Um artista!!! - Apetecia-me uma tosta mista!! Desculpa… Por acaso tenho fome. Vamos comer qualquer coisa? - Não te chegou, seu guloso? Foram. Uns dias mais tarde, depois de mais uma refeição como deve ser, o Dom Geraldo virou-se para a Patareca e disse-lhe que tinha um presente para ela. - É o quê??, perguntou ela toda contente. Penteou-se e olhou para o embrulho. - Abre. Acho que vais gostar, respondeu ele. Ela abriu o embrulho… e quando os olhos bateram numa cueca delicada, de cor azul céu, com renda fininha e umas florzinhas lindas bordadas, mal se conseguiu conter. - Como é que sabias??? Era mesmo isto que eu sempre quis! É linda!! LINDA!!! - Linda és tu, minha florzinha do campo. Linda és tu. Dá cá uma bejufa! - Ai, estou tão contente!!! - Pelo menos não é fio dental. Porra, que estava a ficar assustado!, disse o Porco de repente. - Cala-te oh estúpido! Ninguém está a falar contigo! Vai-te embora!!, atirou ela. - Oh, não faz mal. Eu também tenho um desses e o meu também tem pavor a fios dental… deve ser genético… Gostas minha querida lindinha coisinha mais fofa? - Oh, sim! Gosto! Adoro! Ai, Dom Geraldo. Muito obrigada! - De nada, minha flor. De nada. E viveram felizes para sempre. Fim.

18 comentários:

Vitor disse...

Finalmente!!!!!


(Fantástico)

Me disse...

ohhh... foi o que se pode arranjar. talvez um dia destes, com mais inspiração, consiga fazer qualquer coisita menos parva...
ou não...

(obrigada)

Ana disse...

Excelente! =) Adorei!

Me disse...

foste tu quem deu o mote... culpa é tua
:)

Ana disse...

ahahaha! eu?! a lingerie azul de cabedal, pois... até me sinto inchada (no bom sentido do termo!)
Beijinhos!

Anónimo disse...

Já li três vezes... mas não percebi. Vou comprar qualquer coisa azul.

Zé Ramalho

Me disse...

Ana,
Ora pois claro. Não quis acrescentar a parte do cabedal... teria sido demasiado kinky
;)

Zé Ramalho,
3 vezes? Bolas!! E ainda não percebeste?
Vai lá comprar qualquer coisa azul, sim. Vais ver que tudo melhora... e se ainda por cima comprares essa coisa azul para ofereceres a alguma dona de patareca... UI!!
:)

Ana disse...

ehehehe =P

Sabe-se lá se não te sai da cartola uma história de uma passaroca kinky que quer furar as orelhas e vestir lingerie de cabedal....

Ana disse...

Eu disse passaroca?!... Queria dizer Patareca ://

Me disse...

Loooolol!!
Passaroca é muito bom!!!!!
MUITO BOM MESMO!!!
:)

lololol!!!

Acho que isso sim é inspiração... Passaroca Laroca!!
Podia dar um filme!
:)
Agora fizeste-me rir :)

Ana disse...

Fui fazer uma buscazita para ver afinal quantos eufemismos existem na língua portuguesa para a patareca, passaroca, etc... Vai aqui um linquezinho com um verdadeiro e exaustivo apanhado por ordem alfabética dos ditos eufemismos. Os nossos irmãos brasucas são muito criativos, mas penso que algumas sugestões também podem ser adoptadas pelo português do país de origem =)
Beijinhos!

http://desciclo.pedia.ws/wiki/Lista_de_nomes_populares_para_a_vagina

Ana disse...

Ora bolas.... raio do linque!!!!

http://desciclo.pedia.ws/wiki/Lista_de_nomes_populares_para_a_vagina

A ver se agora dá!

Ana disse...

Não deu... Grrrr...
Eu vou escrever o nome, porque a porcaria do copy/paste está a atrapalhar-me isto... Grrrr!


http://desciclo.pedia.ws/wiki/lista_de_nomes_populares_para_a_vagina

Ana disse...

Olha... no google buscas "lista de nomes populares para vagina" e encontras lá o link.
Parece que o link é demasiado comprido para isto. Olha que coisa!!!

Me disse...

:)

se algum dia houve pesquisa gira que possa fazer no google, esta é, de certeza, a melhor de todas!!!

vou ver, analisar, aguardar que a inspiração me atinja e depois dou novidades
:)

Ana disse...

=) Fico à espera!
Beijinhos!

efe disse...

Não conheço muita gente com 29 anos que escreva assim. Parabéns!

Me disse...

Olá Efe,
Ui. Então vai alguns dos textos mesmo do início do blog... tinha eu então 27
;)

Obrigada pela visita e pelo elogio (acho eu....)
:)