10.4.12

Viagem pela minha terra.


imagem: google

Recentemente tive que fazer uma viagem de comboio ate ao “longínquo” destino de Aveiro. A primeira hora da viagem foi passada a dormir com a cabeça encostada à janela; a segunda, com a cabeça enfiada nas memórias que os sítios que ia passando me iam despertando. A partir de certa altura, à medida que as placas das localidades iam aparecendo e desaparecendo, as memórias tornaram-se tão densas que quase se atropelavam umas às outras para serem sentidas e sorridas como deve ser. As más, as que invertiam os sorrisos, acabaram por ganhar força suficiente e lá me tive de render ao seu poder, aceitante do castigo que me aplicavam, submissa e de nó na garganta por serem ainda tão fortes. Fiz a única coisa que podia fazer. Peguei no telemóvel e marquei um número que há algum tempo não marcava. Atenderam-me rindo, com boa disposição. Há mais ou menos um ano que não falávamos. Em seis anos, e ainda que tenha havido sempre contacto por este motivo ou aquele, nunca houve aproximação. Não se aproxima o que tanto se fez por afastar.
A conversa decorreu dentro das normais formalidades estabelecidas para tais coisas, com certos assuntos a serem graciosamente evitados e outros a gritarem para ser abordados. A confiança e à vontade estavam lá mas, por baixo delas, uma mágoa pronta a vir à superfície e mostrada através do uso de certas palavras, de certas observações, de certos tons. Vesti cada uma das carapuças atiradas na perfeição.
Despedimo-nos. Respirei fundo. Senti-me mal. Mal e confusa. Meio injustiçada, talvez.
Por mensagem, disse o que não consegui dizer com a própria voz. Pedi desculpa. Valia o que valia, disse eu, mas pedia desculpa. A eu de hoje pedia desculpa pela eu de há uns seis anos atras, assumindo a culpa e as consequências de tudo o que acontecera em pleno. Que me sentia em dívida, que valia o que valia. A resposta, também ela valendo o que valia, não tardou. Que havia menos frustração quando hoje se olhava para trás. Que a havia em menos quantidade tanto pelo que se perdeu como pelo que se poderia ter conseguido.
E, lendo aquilo, senti o coração partir. Ainda havia frustração e magoa. Seis anos depois. Ainda havia todo aquele sentimento para com a pessoa que era e fui e que, na altura, não tinha presença de espirito para prever que tal pudesse acontecer. Sempre assumi que no presente apenas poderia haver total esquecimento, indiferença. Mágoa e frustração, não. Tantos anos depois, não. Tive que viajar para longe para descobrir que, afinal, ainda estava muito perto do sítio que com tanto esforço tentei escapar e distanciar-me. Fugi porque me andava a perder num mundo que me tinha sido imposto e lá estava eu, mais uma vez, a ser responsabilizada por tal acto de desobediência civil por ter arruinado planos alheios.
Em nova mensagem, referi que dava muito bem para sentir que ainda não se tinha chegado a um sítio de paz em relação à situação mas que esperava que tal pudesse acontecer no futuro. Que entendia perfeitamente.
Pertence ao passado, disseram-me. Sem castigos para ninguém.
E eu, sentindo-me castigada, devolvi que assim, ao menos, esse tal passado ficava um pouco mais limpo. Pedi desculpa pelo desabafo. Despedi-me.
Aquelas palavras queimaram a frágil ponte que ainda nos unia, deixando-me sozinha numa carruagem a viajar de volta para onde tinha vindo, quase como se me expulsassem dali, daquele território onde deixara de ser bem-vinda e onde dantes era tão acarinhada. E talvez seja melhor assim com a tal ponte queimada em definitivo, sem espaço para mais visitas de cortesia de quando em vez. Vidas refeitas não devem receber visitas do passado que as obrigou a refazerem-se.
Sou, agora, um capítulo encerrado em mim própria. Naquele momento, tive que me perdoar pelo que, demasiado jovem, fiz quando não sabia que mais fazer.
Talvez o meu telefonema tenha servido para permitir que se desse a última estocada em algo há muito moribundo, para se afirmar uma espécie de “estás perdoada, pertences ao passado, não apareças por cá novamente que prefiro não pensar mais nisso sequer”.
Precisei limpar o meu nome junto dele, junto de mim. Pensei que estava a fazer o certo, o correcto, pensei que estava a ser adulta e crescida, assumindo a minha culpa, pedindo desculpa, mesmo valendo apenas o que valesse. Mas parti o coração a mim própria por ter percebido, de forma tão crua, ate que ponto parti aquele outro coração. Eu sabia que o tinha feito, apenas nunca me tinha apercebido que os efeitos pudessem durar até hoje.
Há que saber viajar. Ter cuidado com os sítios que se visitam. Cuidado com as pontes que se queimam. Cuidado com os companheiros de viagem que vamos deixando pelo caminho para se desemerdarem sozinhos em território desconhecido. Cuidado com as memórias que implantamos nos outros. Muito cuidado.
Há viagens que só se fazem uma vez. Há sítios que nunca mais se podem visitar.
Há que saber viajar. 

9.4.12

Novo visual, nova vida.


Este Tasco nunca se quis confessionário das dores e alegrias de quem o escreve. Nunca foi intencionado ser uma espécie de diário onde se anotam todas as miudezas que vão acontecendo e não acontecendo pela vida fora. Penso que quem cá vem saberá disso.
Sempre evitei, por questões cada vez mais redundantes, expor-me em demasia por aqui. Mas foi exactamente isso que fiz e tenho feito ao longo do tempo. Quem andar atento e tiver paciência para ler o blog todo fica a conhecer-Me melhor do que quem convive comigo todos os dias. Os textos do blog são um mapa bastante detalhado dos últimos cinco anos e meio da minha vida. Foram 552 posts (553 com este) e 9206 comentários de mapa. Não é nenhum campeão de audiências e duvido que algum dia seja transformado em livro (o mundo não aguentaria), mas é um testemunho de tudo quanto aconteceu na minha vida e na vida de quem por cá passou e passa. Fizeram-se amizades, contaram-se segredos, brigaram-se brigas, chorou-se e riu-se, tudo até às lágrimas. Há, por aqui, espaço para (quase) tudo. Há e vai continuar a haver. Mas, desta feita, sem se evitar o que ao longo dos anos se tornou inevitável.
Season 2.5 do Outra Merda Qualquer encontra-se oficialmente aberto. Tanto aqui, como ali.
Valha-me caredo. 

2.4.12

Sleeves.

imagem: google

I wear my heart on my sleeve.
It just sits there looking pretty, waiting for that exact, perfect and wrong moment in which to panic and leave me gagging for air.
It sits there on my sleeve, watching. Listening. Feeling. The bastard never lets up. And he speaks. He babbles. He screams at the top of his lungs, warning off dangers and welcoming smiles. He skittles and runs, jumps and hops, sings and dances, cries and yells, stops and restarts. He sits there, on my sleeve, as if he owned me and not the other way around.
He falls for lies and betrayals as easily as I fall on the couch after a long day of having to deal with him and his stupid antics. He believes what he shouldn’t and then gets all sulky and bad-tempered when my brain takes over. His incompetence is astounding. His resilience though, is admirable. He answers back to whom he shouldn’t and keeps his gob shut when he should speak. He says yes instead of no and no instead of yes. He looks at what he shouldn’t and never ignores what he should. My brain has long but given up on trying to make him see some sense, on trying to make him a little bit more down to earth but it’s of no use. He just doesn’t care.
He smiles one day and cries the next. He’s bipolar to the minute.
But he’s always there. Always waiting. Always alert. Always ready to learn from some mistake and to make due on a good deed. He loves and hates, he kicks and screams, he bites and scratches, he smiles and frowns.
He’s all beat up and bruised, full of scars that give him endless stories to tell. But he still lights up when reminiscing about the future and remembers all the good he’s done and had in the past.
He’s no quitter. He never lets up. And even though my sleeve sometimes seems just too small to carry him around, I know that it’s been him carrying me through all the good and bad of life’s adventures.
I wear my heart on my sleeve for the world to see and for him to be seen.
I keep an eye out of course, but how do you reckon with that one little thing that concentrates so much of your will power inside it?
It’s like being an addict, waiting for the next high after the lowest of lows. It’s what keeps you going. That faith and trust that you feel in your bones that one day, maybe one day, after he’s chosen right, you’ll be able to pack him up to a safer place, where he can finally rest and just live free.
Hope never fades. And neither does a heart that just won’t give up on others or on himself.
On my sleeve. That’s where he is. For now.