12.2.09

Ministério da Soltura - Desafio 5#

O Ministro Tozé lá andou a fazer das dele e, assim como quem não queria a coisa, lançou-me novo desafio para, com base numa pequena passagem de obra por ele escolhida, criar texto que desse continuidade à mesma. O resultado fica aqui e ali, cumprindo assim as regras de funcionamento da coisa. Tozé, um enorme Obrigada pelo desafio e pela discussão existencial que o mesmo provocou. Como sabes, e eu não me canso de dizer, eu gosto é disto. Houvesse mais Tozé’s e Ministérios como este. “Enquanto escrevo isto, estamos sentados a uma mesa em frente um do outro. Não é grande, mas é suficientemente grande para nós os dois. Ele tem uma chávena de café e eu estou a beber chá. Quando as folhas estão metidas na máquina não consigo ver o rosto dele. Desta maneira estou a pôr-te a Ti à frente dele. Não preciso de o ver. Não preciso de saber se ele está a olhar para mim.” In Extremamente Alto e Incrivelmente Perto Jonathan S. Foer

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"Volta Sempre"

"Aliás, até preferia que não o fizesse. O olhar dele queima-me a pele. É demasiado exigente aquele olhar. Dantes achava-o profundo e vasculhador da minha alma. Agora acho-o incómodo. Dantes escondia-me naquele olhar, segura e confortável na sua intensidade. Agora escondo-me dele como o diabo da cruz. Ele não tem culpa, mas paga as consequências. Em dias como este, não sei como lidar com a presença dele. Não sei o que pensar dele estar aqui a beber do meu café, sentado na minha cadeira, à minha mesa, na minha sala. Já me lembrei de perguntar porque não se vai embora. Porque continua a estar aqui. Já sei qual a resposta… nunca foi porque nunca pedi. Tal como Tu me dizes isso. Que nunca vieste porque eu nunca pedi. E era preciso pedir? Não vias que era o que queria? O que precisava?

Agora só o tenho a ele. E não sei como me livrar desta presença que me incomoda até ao centro de mim. É aí que estás, sabias? No meu centro. Vivo e respiro-te para dentro de mim como se a minha vida dependesse disso. E depende. Mas tu não vens e ele não vai.
Desapareceu. Não sei para onde foi. Espreito por cima da folha e não o vejo. A chávena continua lá. No mesmo sítio. O café ainda deita fumo. Intocado. Às vezes faz isso. Desaparece sem mais nem menos. Desconfio que consegue perceber que estou a escrever para Ti. Nunca pergunta, mas sente-se que sabe.
Lembrei-me da última vez que falámos. Tu e eu. Lembras-te? Foi há tanto tempo. Lembras-te de me dizeres que estavas disposto a ajudar-me? Lembras-te que te disse que não precisava de ajuda? Eu não te menti. Estava certa disso. Hoje seria mentira. Na altura não o foi.
Ainda não voltou. Estamos sozinhos. Ainda bem. Assim sinto-me mais próxima de ti. Mais perto. A chávena devia ser tua. Nossa.
Ele desapareceu. Desaparece sempre que escrevo para ti. Já percebi isso. A chávena continua no mesmo sítio onde a deixei depois de ter feito o café. Só quando escrevo para ti é que desaparece. Só volta quando tiro a folha da máquina e a tapo para não apanhar pó. Ele sabe que tu não me respondes porque nunca chego a enviar o que escrevo. Talvez seja por isso que não desaparece de vez?
Se recebesses estas folhas virias ter comigo? Virias oferecer novamente a tua ajuda? Acho que a aceitava. Não sei. Estou cansada de estar sozinha. A presença dele só me faz perceber até que ponto o estou. Fazes-me falta. Estares aqui para não haver espaço para mais ninguém. Estares aqui para todos os espaços serem teus. Nossos.
Ele só desaparece quando falo contigo.
Nem tocou no café. É sempre assim. Nem sei porque ainda me dou ao trabalho.
Vou-me despedir.
Sinto-me cansada hoje. Esta casa vazia pesa-me. A escuridão cega-me. O silêncio mata-me. Vou descansar.
Sei que amanhã volta. Volta sempre. Gostava que não o fizesse. Mas não há nada que eu possa fazer. Ele volta sempre. Devia ter-te deixado vir para mim. Como querias. Como disseste que podia e devia ser. Que todos iam compreender que eu tinha de refazer a minha vida. Talvez ele não tivesse voltado. Talvez tivesse ido de vez.
Despeço-me.
Até breve, meu amor. Em breve volto para ti.
Só assim ele desaparece e eu fico sozinha contigo.
Até breve, meu amor."
Escrito por: Me
Originalmente publicado em: Ministério da Soltura

11.2.09

Shhhhhhhhhhhhh..........

Reset and Connected

imagem: google
Sábado é dia dos Namorados. Todos sabemos disso. Vai haver hordas de gente a sair para a rua em busca de refeição a dois, hordas de homens em busca do raminho de flores perfeito, hordas de mulheres à procura do perfume certo. Calha bem ser ao Sábado… dá tempo de ultimar pormenores… O calendário foi generoso este ano. O dia dos Namorados não é importante para mim. Nunca foi (o que não quer dizer que não “celebre” a coisa com afinco na mesma). O que tiver de oferecer (não é o que se faz?) a alguém ofereço em qualquer altura e gosto de pensar que o que tiver de receber de alguém, também recebo em qualquer altura… sejam as ofertas materiais ou não. Para mim, o Dia dos Namorados é uma espécie de “lembrete”. Dado o dia ser dedicado às causas do amor, vejo mais a coisa como uma data que devido a isso nos faz pensar em e lembrar os amores e desamores que tivemos na vida. É algo que nos faz olhar à nossa volta, estabelecer coordenadas e, se possível ou necessário sequer, chegar a alguma conclusão. É fácil fazer isto. Para quem oferece alguma coisa nesta data, com que espírito é que se pensa no presente? Com que atitude se vai comprá-lo? Frete ou emoção? Nervosismo ou “pronto-já-tá”? E a refeição “obrigatória?” Ansiosamente aguardada ou apenas mais um jantar num restaurante ou em casa à luz das velas (se as houver)? E se nos pusermos a pensar em edições passadas deste dia? Quando é que o dia foi completamente aproveitado para se mostrar, sem pudores, o que se sente por alguém? Quando é que o dia foi completamento aproveitado para aceitar que mostrassem, sem pudores, o que se sente por nós? Ai os balanços… Mais do que celebrar o amor (como se fosse algo ao qual se presta homenagem assim), uso esta época para fazer esse tal balanço. Olho para trás e, por entre as memórias guardadas, tento fazer algum sentido do que tive, tenho e espero vir a ter. Olho para o lado e posiciono-me em relação ao que tive, tenho e espero vir a ter. Olho para a frente e faço exactamente o mesmo. Já houve balanços em que quando cheguei à parte do olhar para o lado, só me apeteceu fugir. Houve também balanços em que o olhar para trás me fazia sentir feliz pelo que tinha ao lado. Mas depois ficava sempre com aquele sentimento tipo “porra, não devia ser assim, não devia ser por comparação…” E também já houve balanços em que olhar para a frente era tudo quanto me restava… o resto não interessava. Doía demasiado. Agora, hoje, olho para trás e só vejo o bom que houve (como daquela vez em que eu ofereci flores e a mim ofereceram um par de boxers…ou como aquela outra em que se decidiu à última ir jantar fora e tudo quanto restou fazer foi comer umas fatias de pizza sentados, com outro casal, dentro de um canteiro de flores num centro comercial porque não havia mais espaço…). Olho para a frente e dá-me vontade de avançar, de ir. Nem sequer espero nada. Sei que vai vir. Olho para o lado. Olho para o lado e fico sem reacção. As convidativas comparações são impossíveis. Os “resets” ao sistema só não são diários porque aprendi a fazê-los durar mais tempo. Olho para o lado e fico sem saber onde estou porque aqui eu nunca tinha estado. Não tinha os mapas actualizados. - Onde é que vamos jantar no Sábado? - Qual Sábado? A primeira pergunta foi feita há uma semana e meia atrás. A segunda pergunta foi minha. Para quem quiser aproveitar, feliz Dia dos Namorados. Que os preparativos façam valer e sejam dignos da celebração.