16.6.09

Uma questão de hábito...

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Há uns dias, disseram-me uma coisa que, desde então, me tem batido e andado às voltas na cabeça como aquelas moscas que não percebem que as vamos matar assim que pudermos e que continuam a querer entrar-nos pelos olhos e boca e nariz acima, insistindo nalgo impossível de concretizar. “Tudo o que é mais feminino atrapalha-te.” E depois riram-se. Foda-se. Esta bela constatação veio após eu ter ocupado vários minutos da minha vida a justificar o porquê de certas coisas. Vejamos: - Não uso saltos altos porque atrapalham-me o andar, obrigando-me a pensar onde meto e como meto os pés. Tenho mais em que pensar. O que não quer dizer que não use um meio salto sem problemas nenhuns de vez em quando, quando assim tem de ser. - Não uso unhas compridas porque atrapalham-me ao usar o teclado (actividade à qual me dedico durante horas e horas e horas a fio todos os dias). Aliás, não conheço ninguém que com igual ou semelhante actividade tenha unhas compridas ou mais compriditas, vá. - Não uso maquilhagem todos os dias porque atrapalha-me em termos de ter que ter cuidado de cada vez que coço um olho, por exemplo, e porque os 3 minutos que demoraria todas as manhãs a colocar tais substâncias na minha pele me iriam atrapalhar o elaboradíssimo esquema e rotina matinal à qual me dedico religiosamente. - Não uso roupa mais justa porque me atrapalha os movimentos e porque não gosto de me sentir apertada. Para além disso, e quando faz mais calor, não gosto de me sentir colada à roupa. Constrange-me. - Não vou à depilação todos os meses porque atrapalha-me o orçamento mensal e porque me atrapalha os horários, preferindo realizar tais tarefas em casa, de acordo com necessidade, sempre que me apetecer e assim tiver de ser. - Não uso saias mais vezes porque me atrapalham os movimentos e não me deixam estar à vontade e porque implicam sempre um esforço adicional em termos de postura e posição. Uso mais no inverno do que no verão… Collants de Lycra. Belas invenções. Sou, como aliás também já me disseram, uma Trapalhona. Foda-se. Vejamos novamente: - Para quê usar saltos se eu passo aí umas 12 horas por dia sentada? E as filas de trânsito que apanho todos os dias? Saltos num pára-arranca? Não dá jeito nenhum! (Se passas o dia sentada, argumentaram, podias-te habituar mais depressa…Balelas, respondi, atrapalham-me. Preciso é de estar confortável… É uma questão de hábito, contra-atacaram. Humpf!, respondi. E ninguém está a falar de saltos de 20 centímetros… Humpffffff!!!, respondi novamente). - Para quê usar unhas compridas se das vezes que já as deixei crescer acabo sempre por me quase assassinar de cada vez que vou coçar os olhos??? Para quê se tais coisas apenas atrapalham a velocidade e precisão do meu teclar? (É uma questão de hábito, responderam. Ficavam-te bem, atiraram. Humpf!!!, respondi, eu). - Maquilhagem todos os dias? Mas para quê se eu passo 12 horas enfiada num escritório sem ver mais ninguém sem ser as minhas colegas??? Quando saio para outros sítios até uso, porra! (Ninguém está a dizer para usares base e tudo e mais alguma coisa todos os dias… mas pronto. Essa ainda vá que não vá. É uma questão de hábito, atiraram. Huuuuuuumpfffffffff!!!!, assoprei.) - A roupa justa deixa-me desconfortável! A minha roupa é de meu número! É do meu tamanho! Apenas não uso daquelas roupas que parecem que foram pintadas no corpo! E eu tenho roupa mais justinha! E com decotes, até!! Não uso é numa base diária porque não dá jeito não poder estar à vontade e confortável ou ficar com a marca das calças nas pernas por estarem tão apertadinhas!!! (Oh, oh! Tu tens é vergonha de ti!, acusaram-me. Oh foda-se! Não gosto de ter ninguém a olhar para mim, seja quem for. E se andar assim, passo despercebida, defendi. Mas para quê? Só vês que estão a olhar para ti se também tu olhares! Não olhes!, sugeriram. É uma questão de hábito, concluíram. Oh-foda-se-huuuummmppppfff!!!!, quase que grunhi). - Não vou à depilação a cera todos os meses porque não dá, porque eles não crescem assim e porque se fosse, tinha sempre pelos a nascer desencontrados e porque depois tinha de esperar até à próxima marcação e se fizer eu quando precisar controlo melhor isso e fica mais barato e faço com o meu tempo e não me aleijo tanto! (Isso não é assim, tentaram explicar. Ou vais à depilação ou não vais. Eles crescem. É mesmo assim. Mas quantas mais vezes fores, mais enfraquecem e menos terias de ir, ou não?, perguntaram. Eu sei, eu sei, eu sei! Mas atrapalha-me ter que passar os sábados de manhã nessas coisas quando tenho muito mais que fazer e quando em casa consigo a mesma coisa, respondi. É uma questão de hábito, atiraram. Oh, pá!, queixei-me. Queres que seja eu a marcar a depilação para ti? É isso que te atrapalha?, perguntaram. Oh-pá-não-cala-te-huuuuuuummmmpppppfffffffffff!!!!, supliquei.) - Não uso saias porque aí tinhas de andar sempre com a depilação feita e porque isso dá trabalho e os gajos crescem e porque depois não me podia sentar como queria e andava sempre de penas ao leu e sei lá o quê e depois tenho frio ou então queimo as pernas quando estou a torrar ao sol nas filas de trânsito! Não me dão jeito nenhum! Calças é muito melhor!! (Mas desde quando é que calças dão jeito às mulheres? Vocês para irem à casa de banho têm de se despir quase todas se estiverem de calças! Se usarem saia, não! Calças dão mais jeito?? E essa do estar mais à vontade é treta. Até parece que andas aí sentada de perna aberta! É uma questão de hábito!, educaram-me. Não é nada disso! E se tivermos collants?!?! Sabes o transtorno que é baixar e puxar os collants? A preocupação que é não se romperem??? Sabes lá tu o que é sofrer!!, queixei-me afincadamente. E não digas que é uma questão de hábito! Pelos vistos não apanhei esses hábitos!! HUMPF!!!!, concluí. E esses hábitos lá se apanham?! Ou se adquirem, ou não! És uma trapalhona. HHHHHUUUUUMMMMMPPPPFFFF!!!!!!!!!!!) Oh-foda-se-para-esta-merda-pénis-fecundem-porra-pá-caredo-treta-do-caraça-porra-pá. “Uma questão de hábito”. Uma questão de hábito my bloody ass!!! E foi por isto que desde então tenho esta mosca a melgar-me os neurónios. Sou pouco feminina. Oh que merda, pá. Quando é preciso eu pinto-me e ando meio despida e apertadinha e de saltos! Tudo ao mesmo tempo! Tenho é de ter uma razão! Agora, no dia-a-dia? Oh, pá! (hoje estou de ténis, t-shirt e calças de ganga que não me ficam justas mas que também não estão largas. São confortáveis. Foda-se). E depois, assim no fundo, sei que é sim por hábito. Por hábito de nunca me ter dado ao trabalho de, de nunca me ter preocupado com, por ter passado os últimos 8 anos da minha vida enfiada em escritórios e agarrada a computadores e a teclados, escondida de tudo e todos, de ser tão preguiçosa com estes pormenores que nem penso neles. Vejo gajas cheias de bujigangas e tops e alças e sandaletes e coisas justas e só penso na pachorra que é preciso para andar assim todos os dias. Canso-me imediatamente. No fundo, sei que é por não gostar de me expor. De me “fazer valer” por certos e determinados atributos que não entram nas escalas de QI. No fundo, sei que é por trabalhar e viver num meio masculino onde são as gajas que discriminam se por acaso o pessoal for mais jeitosinho… ou mais bem arranjadinho. Eu não suscito olhares e comentários, e também não os faço. Não sou ameaça para ninguém. Para elas não sou porque não ando de mamas ao leu, logo não suscito interesse masculino, logo…; para eles não sou porque sou gaja que não suscita grande interesse porque sou demasiado esperta e inteligente… e não ando de mamas ao leu. No fundo, sei que isto tudo se resume a ter passado demasiado tempo da minha vida a fazer-me valer pelos brains com que meus queridos pais me abençoaram, negando ou ignorando que esta coisa de ser gaja implica certas diferenças que devem ser celebradas e não dispensadas (o tempo que gasto com os meus formandos, vosso deus, a repetir esta frase: as diferenças entre género devem ser celebradas e acarinhadas, não ignoradas se não qualquer dia não se sabe quem é quem é perde-se tudo o que for bonito e positivo da nossa condição, seja ela qual for…). No fundo sei que tenho “issues” e que estes confrontos com o espelho me deixam meio… ahhh… atrapalhada. “Tudo o que é mais feminino atrapalha-te.” Oh, foda-se. Pronto. Já desabafei.

8.6.09

Há? Há.

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Todos somos inseguros. Todos temos pontos fracos, fragilidades que defendemos e protegemos para que nada as atinja e nos faça sofrer. Todos temos feridas que mantemos escondidas do mundo, não vá alguém lembrar-se de enfiar lá o dedo e escarafunchar para ver no que dá. Todos temos as nossas cicatrizes de feridas passadas, cicatrizes essas que servem de lembrete do que já foi, do que não poderá voltar a ser. Vamos vivendo, vamos aprendendo. Vamos olhando e vamos vendo cada vez mais e melhor. Vamos tocando aqui e ali e às tantas já podemos dizer que sentimos. Vamos provando isto e aquilo e chega ao ponto em que podemos dizer que saboreamos. Vamos amando e odiando até que um dia conseguimos ver que não era bem amor, que não era bem ódio, que era outra coisa qualquer para a qual não tínhamos palavra adequada na altura, para a qual não tínhamos discernimento suficiente para saber interpretar. Vivemos, aprendemos. Vamos passando por fases menos boas pensando que são as piores; vamos passando por fases boas pensando que não haverá nada melhor. Enganamo-nos propositadamente para podermos bem encaixar tudo quanto nos está a acontecer, procuramos razões para que as coisas tenham significado para nós, cavamos palmos e palmos de terra até encontrarmos algo que faça valer a pena tanto esforço. Depois a coisa passa e quando olhamos para trás, já em posse de mais vivências e de mais aprendizagens, vimos as coisas de forma diferente, damos novo sentido a tudo quanto houve, retiramos alguma carga emocional daqui e dali, carregamos nela aqui e além e quando adormecemos, equacionamos tudo, revemos o cálculo feito nas nossas cabeças e concluímos que a conta está bem feita, tudo no sítio, podendo depois adormecer sabendo que, sabendo-se o que se sabia, era tudo quanto se podia esperar. Paz de espírito. Fabricamo-la aos potes. Olhar para trás não é fácil. Confrontamo-nos com uma versão de nós que nem sempre é bonita de ser ver. Que nem sempre nos orgulha, que nem sempre nos deixa felizes. Olhar para trás implica ver e saber onde estamos para podermos bem contextualizar onde estivemos e para onde vamos. Se andarmos perdidos no agora, o passado e o futuro pouca ou nenhuma distinção têm, reviravoltando-se tudo numa espécie de nevoeiro turvo que nos deixa cegos e ainda mais perdidos, vivendo cada dia numa espécie de ânsia, numa espécie de confusão mental em que se torna difícil saber o que fizemos ontem e o que temos para fazer amanhã. O hoje é apenas o final do ontem e o início do amanhã. O hoje é a espera de ver no que deu o ontem, no que irá dar o amanhã. Passamos metade da vida a tentar viver de acordo com aquilo temos vindo a aprender, com aquilo que temos vindo a integrar em nós como sendo o caminho que queremos. Passamos metade de vida a fazer contas de somar e de subtrair e de multiplicar e de dividir, procurando a fórmula mágica que justifique o caminho percorrido e as decisões tomadas; que autorize o caminho por percorrer, que valide o lugar onde estamos. Passamos metade da vida a procurar algo que não sabemos como se parece e a tentar esquecer outros algos com nomes, caras, cheiros… outros algos que identificamos e atribuímos de imediato classificação ou ferida ou cicatriz, procurando nos novos algos algo que seja melhor, pior, maior, mais pequeno… seja o que for. Passamos a vida a comparar o que temos com o que tivemos ou podíamos ter, sem darmos a devida atenção ao que seguramos nas mãos. Ou é melhor, ou é pior, nunca é apenas o que é. Esta busca-busca-mata-mata põe em causa tudo quanto se teve, põe em causa tudo quanto se poderá vir a ter mas, mais importante, ignora tudo quanto se tem. Uma vez, perguntaram-me se eu estava chateada porque esperava mais da situação. Se estava chateada porque já tinha tido mais do que aquilo que estava a ter naquele momento. Após 2 segundos de silêncio, percebi que não e disse-o. Não espero nada hoje tendo por base o que já foi ou o que já tive. As coisas mudam, os contextos são outros. Até eu sou outra. Estava chateada, admiti eu a mim mesma nos tais dois segundos de silêncio, porque o contexto não me satisfazia. Era o contexto que eu tinha percebido ser o menos bom para mim. Não o que poderia esperar dele, não o que tive noutros contextos, não o que poderia ter se o mesmo fosse diferente. Wrong place. Simples. É tão mau admitirmos isto? Que fizemos opções que nos colocaram em sítios onde depois descobrimos que não queremos estar? Nada contra a qualidade das opções, nada contra a intenção com que foram tomadas, mas será assim tão mau olharmos à nossa volta e decidirmos que pura e simplesmente não pertencemos ali? Gostava que houvesse mais coragem neste mundo para que cada um de nós pudesse levantar amarras e seguir viagem para onde realmente se tem de estar, se quer estar, se deseja estar. Conheço demasiadas pessoas agarradas a decisões feitas em determinados contextos, não querendo dar o dito por não dito, ou pura e simplesmente vivendo de acordo com a máxima do “é o que há” sem olharem noutras direcções, sem se darem ao trabalho de ver além do que há para haver. Há mais. Há sempre mais. Mexam-se. A paz de espírito fabricada desmorona com as primeiras chuvas do ano. A que existe mesmo, a que é real e sentida, dá-nos vontade de dançar nessa chuva, de nos molharmos até à raiz dos cabelos, independentemente das molhas que possamos ter apanhado no passado. Sabemos que esta é outra, que está não vem compensar outra qualquer. Que não dançamos hoje por podermos não vir a fazê-lo de novo no futuro. Há sempre mais. Mexam-se.

5.6.09

OH YEAH!!!

Como o prometido é devido, eis algumas plingrafias da noite de 3 de Junho para quem não esteve presente poder ter, pelo menos, um pequeno vislumbre da coisa. Depois não digam que eu não vos dou nada.
As fotos foram tiradas com o meu lindo Sony Ericsson... podiam ser melhores... mas também podiam ser piores! É o que há! Enjoy.